sábado, 25 de setembro de 2010

Contos: Riot Girl - A filha de Lilith [pt 3]

Coragem Libertadora de final de ano II

Ela estava lá, caída no chão daquele quintal sujo do anfiteatro da escola. Acordou com o sol brilhante nos olhos. Devia ser umas 08:00 horas da manhã. Levantou devagar, colocou a mão na cabeça. A mistura de bebidas e drogas da festinha martelando lá dentro. Ela levantou com esforço e cambaleou até a parte de dentro do local. A visão embaçada. Ela viu que estava sozinha lá. Passou a língua nos lábios e sentiu o gosto amargo da ressaca.

Na noite anterior, os poucos restantes na festa, muito noiados, pularam o muro pouco antes do amanhecer. Nem viram Joana caída lá no chão. E mesmo se tivessem visto, teriam deixado ela lá também.

Era estranho lembrar que há apenas alguns anos ela era só uma patricinha mimada, embalista, paga-pau, sem personalidade (mas apenas não havia descoberto quem ela realmente era). Agora ela estava lá, sentindo-se a pessoa menos pura do mundo. Remorso? Não. Mais estranho ainda é que ela não o tinha.

Joana começa a procurar algo desesperadamente. Olha na mesa em cima do palco, onde outrora um garoto magnífico estava lá sentado. Magnífico e maldito. Deixara ela lá sozinha depois de dopá-la e abusar de todos os pedacinhos de seu corpo. Olha embaixo da mesa. Desce correndo e vai para a parte de fora, volta desesperada. Olha embaixo de uma cadeira. Ela sorri quando encontra o que procurava. A chave. A chave da porta do anfiteatro.

Ela abre cautelosamente. Ninguém por perto. Corre até o banheiro que fica em frente. Ela estava um lixo. Os mesmos coturnos vermelhos, a mesma camiseta rasgada Jack Daniels, e a mesma saia jeans preta, a diferença é que estavam todos sujos. Ainda bem que ainda tinha um pouco de sabonete e papel por lá. Lavou o rosto, o tórax (estava oleoso), as axilas, as partes íntimas. Ela estava com nojo de si mesma, não pelo que fizera. Pelo que aquele garoto de beleza esplêndida, porém caráter demoníaco fizera com ela. Mas não havia arrependimento.

Ela se sente um pouco melhor depois da limpeza. Era impossível lavar as marcas na memória e na consciência. Nem a queimadura de cigarro que ela ganhara no peito, para nunca esquecer daquela noite. Mas pelo menos sentia-se com forças para sair andando daquele lugar e continuar sua vida. Pelo menos agora que estava ligeiramente limpa, poderia sair de lá sem que os olhares a condenassem.

Ela sai do banheiro. Ninguém estava no pátio. Ela anda até os corredores onde ficavam as salas de aula, evitando o corredor da coordenação e diretoria. Olha sala por sala, para ver se tinha alguma alma viva. Algumas estavam fechadas. Umas duas salas tinham professores concentrados fechando médias. Ela passou pelas salas sem ser notada. Não tinha nenhum aluno na escola inteira. Ela olhou na última sala à direita do corredor. Ela vê o professor Daniel.

Professor de História. Trinta e um anos. Possuía os cabelos mais lisos que ela já vira. Castanho bem claro, quase loiro. Ele era lindo, com aqueles alargadores 16 milímetros em cada orelha. Parecia mais um tatuador skatista do que um professor. Mais uma quedinha de Joana. Ela não pagava um pau para ele, pagava uma árvore inteira, era o que ela dizia para as amigas.

Ele percebe que alguém o observa e olha. Vê Joana. Sorri para ela. Desde que ele chegara na escola, ela sempre puxou conversa com ele, então eles já se conheciam bem.

“Oi” Disse Joana. E foi entrando.
“Oi, Joana... O que está fazendo aqui?”
“Eu vim para estudar. Apesar de todo mundo ter combinado de faltar hoje, teoricamente tem aula normal, certo?”
“Certo.” Disse ele sorrindo. “Não conhecia este teu lado estudiosa.”
“Eu sou do contra... É diferente.”
“E o que pensa em ganhar com isto?”
“Tenho algo em mente... Mas não sei se daria certo.” Ela fecha a porta da sala, que por azar (ou sorte) do professor, era daquelas que se fechadas por dentro, mesmo que não trancadas, ninguém de fora pode abrir.
“Joana, eu sou casado.” Disse ele mostrando a grossa aliança em seu dedo.

Ela anda até ele graciosamente, como uma gata. Ela afasta alguns papéis na mesa e senta em cima. De frente para o professor, com as pernas meio abertas e cotovelos apoiados nas coxas, ela fala com um falso ar de aluna curiosa.
“O que é traição para você, professor?”
“É o que você está me fazendo realizar agora" Disse ele olhando suas coxas, depois seus olhos.
“Isso porque ainda nem fizemos nada?” Pergunta ela rindo com escárnio.
“Traição para mim vai além do ato. Um pensamento às vezes é muito mais sujo do que o que todo mundo considera traição.”
“Já que você pensa assim, então você acabou de trair sua mulher. O ato não significa mais nada”

Ela pega um cigarro do bolso da saia e acende.

Ele observa a feição de menina-mulher dela, e sorri. Ele realmente estava pensando no que ela dissera. Menina esperta ela era.
“Você é bem espertinha.” Ele disse, pegando o cigarro dela para um trago.
“Sou o suficiente para ter certeza que você me quer. Não tenha medo, professor. Ninguém vai ficar sabendo. E você vai gostar muito, pode apostar.”
“Eu sou muito mais velho que você. E tenho um filho também, de um ano”
“Eu gosto de homem, não de garoto. E sobre o filho... É só você não pensar nele agora. Você verá ele esta noite. Ele e sua mulher. Como todos os dias. Sua velha rotina. Você vai ser corroído pelo sentimento de que podia ter feito algo diferente hoje, mas não fez.”
O coração dele bate forte quando ela cruza as pernas na frente dele.
“Eu sei que aquele dia na excursão você estava louco para me pegar” Disse ela
“Você estava realmente muito linda. Mas eu tive que ser forte, tinha muita gente da escola lá, e até outros professores.”
“Eu sei. Por isso que não usei todo o meu charme para te conquistar. Eu fiquei com peninha de você. Não queria te fazer sofrer. Mas agora, podemos fazer tudo que quisermos, bem aqui.”

Ela desce e fica sentada no colo dele, com as pernas abertas, ainda de frente para ele.

“Você me deixa maluco, menina.” Disse ele colocando as mãos em suas coxas, perto de sua bunda.

Ela beijou o pescoço dele. Ele excitou. Ela foi subindo para o rosto. Chegou na boca. Eles tinham um gosto bom de cigarro de menta. Ele colocou a mão no sexo dela e fez uma espécie de massagem. Ela gostou. Abriu a calça dele e o masturbou. Cansada, ela parou e se encaixou no pênis dele. Ela estava em cima e comandava a situação. Ela controlava a velocidade e a intensidade.

Depois de um tempo, o professor quis mudar de posição. Ele colocou-a em cima da mesa e, de pé, fodeu mais um pouco. Ele goza dentro dela. Ela sente o prazer em cada músculo dele e finca as unhas em suas costas. Ele olha para ela de um jeito que a faz amá-lo, porque naquele momento ele estava amando-a. Amor momentâneo, amor grato.

Ele estava virando-a para lhe fazer um sexo oral. Ela então recusa, falando que precisa ir embora. Recompõe-se, arruma o cabelo e lhe dá um selinho de despedida.

“A gente se esbarra por ai, professor.” Disse ela
“Espero te encontrar de novo, Joana” Disse ele, amando-a.

Ela dá uma última olhada para aquele homem que talvez ela nunca mais voltasse a ver na vida, já que ela acabara de terminar o terceiro ano naquela escola. Ela sabia que nunca esqueceria aquele homem. Mas enfim, ela deixa o lugar. Aproveitando que a espetora abriu o portão da frente para a entrada de alguns materiais, Joana correu e conseguiu sair da escola. Deixando para trás uma espetora gritando.

Ela continuou correndo, até chegar em casa. Durante o caminho, ela estava pensando na bronca que ia levar de sua mãe. Mas ela estava preparada. Até se sua mãe quisesse bater nela, ela deixaria. Sabia que merecia. E talvez uma surra a fizesse ficar mais tranqüila com sua consciência, mais limpa. Depois ela com certeza pediria desculpa para sua mãe, e ganharia um abraço dela. E ela queria esse abraço, queria se sentir amada de verdade.

Chegando em casa, não viu ninguém na sala. Chamou a mãe. Gritou que tinha acabado de chegar. Gritou perguntando se ela não ia vir brigar com ela. Ninguém respondeu. Ela foi até o primeiro degrau da escada. Chamou. Ninguém. Foi até a cozinha. Encontrou um bilhete na geladeira. Escrito com as familiares letras de mão de sua mãe.

“Filha, sai com o Rob. Decidimos viajar de última hora. Espero que passe bem o final de semana. Pode ficar na casa da Stephany se quiser, já falei com a mãe dela. Ou fica em casa mesmo, mas tenha juízo. Volto no domingo à tarde. Mamãe te ama. Beijo.”

Nem ela mesma sabia o que estava sentindo. Felicidade ou tristeza? Ela preferia uma surra do que indiferença. Ela preferia enfrentar o tornado para depois vir a calmaria do que passar como se nada tivesse acontecido, sem lavar sua alma. Sua mãe saíra com o namorado e não estava lá para brigar e bater nela. E ela estava sentindo-se infeliz por isso. A menina do contra.

Sentia-se mais sozinha do que nunca, mas era necessário um pouco de solidão e infelicidade para ver que a vida não é feita só de luxúria.




- Ana Costa Lima

2 comentários:

  1. E no ato de proclamar nas palavras o que a mente nos diz, parece que a criação se mescla com a realidade, e aos olhos de quem lê e vê por detras dos véus do mistério e as entrelinhas dos relatos, enxerga desejos escondidos e sonhos esperados, e porque não criador se torna criatura?!

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  2. Meu caro amigo Evandro, ainda bem que sonhar não é proibido neste país, porque mesmo se fosse, eu faria do mesmo jeito. Mais uma regra que eu teria o prazer de quebrar.

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