terça-feira, 28 de setembro de 2010

Contradições.

Eu, que sempre quis mudar esse mundo machista, onde “mulher-que-é-mulher” fica em casa arrumando a casa e cuidando do filho.


Eu, que sempre lutei a favor da igualdade.


Eu, que sempre incentivei a mulher a ir à luta, a não se acomodar. A querer ser mais do que as pessoas a limitam a ser.

Eu, que criei esse blog com idéias feministas, com contos no qual a mulher não se rebaixa a represálias ou rejeições, com letras de musicas feministas e revolucionárias. E que divulgo para que outras mulheres libertem-se de seus tabus...


Eu, justo eu, que achei que não caia em contradições.


Mas até eu. Até eu... Fui vítima de mim mesma.


Eu estudava. E eu trabalhava. Estudava de manhã, e trabalhava à tarde, na mesma escola. Na cidade vizinha. Tinha que acordar cedinho. Eu, como mulher que sou, acordava uma hora antes de sair de casa, para me arrumar. E isso fazia com que acordasse mais cedo ainda do que era necessário para chegar à escola no horário, obviamente. Para enfrentar uma linha 32 intermunicipal em horário de pico.


Eu não tinha tempo de tomar café (até teria se acordasse mais uns 20 minutos mais cedo, mas pelo amor de deus, eu já acordava cedo demais), ficava o dia inteiro fora. Às vezes almoçava, mas só quando eu sentia que não ia agüentar passar o dia sem mesmo. Eu trabalhava a tarde inteira e enfrentava criancinhas e adolescentes endemoniados.


A escola abusava de mim, pois eu era apenas estagiária de Sala de Informática e tinha que ficar lá com salas em aula vaga (não ganhava à mais para isso, não tinha faculdade e não estava no meu contrato fazer isso, mas o contrato entrava em contradição quando dizia que os estagiários deveriam aceitar as regras da escola, ou seja, tínhamos que aceitar o que a escola determinasse, mas acho que eles abusavam de nós em nos fazer de professores eventuais)


Saindo do trabalho, às 17:00 horas, pegava novamente a maldita linha 32, lotada, via tiozinhos peões voltando do trabalho de servente de pedreiro (nada contra a profissão). E pensava: Será que esse sacrifício todo que eu faço vale a pena? Eu sacrifico o meu humor, a minha saúde mental (e física) para que? Comecei a ver que aquilo não fazia sentido.


Todos os meus colegas sentiam inveja do meu trabalho. Porque eles sempre me viam no MSN e achavam que era legal aquilo. Até que era legal. Dava muito bem pra atualizar meu blog, entrar no orkut, MSN, enfim. Mas, como eu sou do contra, eu não gostava. Porque não suporto tédio, e no meu trabalho era assim: ou não tinha ninguém ou tinha “todos”, e quando tinha “todos” era um inferno. A única criança que eu gosto, é o meu irmãozinho. E eu não tinha paciência com as criancinhas que lá freqüentavam, mas tinha que ter, e eu me sentia pressionada.


Eu até que fiz amizade com alguns alunos mais velhos, mas este foi meu erro. Por ter virado amiga deles, eles também abusavam de mim. E não me respeitavam mais. Queriam cabular lá dentro, queriam mexer no meu computador administrador, enfim. Fui burra, mas era algo irrefutável e que não dava mais para concertar. E eu acabava levando broncas (mas nisso não tiro a razão da escola)


Eu sentia que aquele não era o emprego certo para mim. E qual foi o problema de sair? O problema é que agora eu acordo onze horas da manhã, não faço nada o dia inteiro. Semana que vem vou começar a estudar em outra escola, das 13:00 às 18:20 horas. Ou seja, vou dormir até 11:00 horas ainda, tomar banho, ir para a escola, voltar e entrar na Internet. Porra nenhuma o dia inteiro. Não mais sacrifícios.


Cadê meus ideais feministas? Cadê a frase que as mulheres têm que ir para a luta, sendo que troquei a luta pela boa vida de vagal? E daí que eu tava ficando estressada? E daí que eu acordava de noite, e voltava de noite? E daí que enfrentava monstrinhos e não ganhava pelo trabalho que realizava? E daí que estava estragando minha saúde física e mental? Eu saí. Eu desisti. Desisti da luta.


Mas eu reconheço. No pior dos casos, tem mulheres que nem percebem que se contradisseram. Mulheres que se dizem feministas. Mas eu reconheço: Fui preguiçosa. Me contradisse. To sem moral. Desisti sim. Mas isso não significa que desistirei das próximas. Essa luta eu perdi, mas a próxima eu ganho. E espero reconhecer sempre que me contradizer, porque só assim terei a chance de não mais errar.


Uma coisa é certa: Sempre pra frente, sempre me superando, sempre procurando reconhecer os meus erros, sempre melhorando, sempre na busca (utópica) da perfeição.

 
 
- Heloísa Vasconcelos

4 comentários:

  1. Quer dizer que você vai desistir de jogar aos 45 do segundo tempo!
    na boa te conheço a pouco tempo e ja me identifiquei com você mas acho que você só esta um pouco estressada com tudo isso como ja te disse uma vez temos que passar por grandes barreiras para conseguir chegar ao topo e não e´numa vida d e vagal .... nem desistindo de um grande desafio que você vai conseguir o que você deseja alcançar creio que a sua atitude seja um tanto quanto precipitada pois levamos uma vida basicamente parecida e eu te garanto não sera a primeira queda que vai me derrubar eu sou forte pra me recompilar e me levantar e creio que você também é e logo sendo feminista isso deveria te dar mais força pra vencer novamente não desiste pois pai e mae nao sao eternos e a gente precisa aprender a se virar sozinho e estar pronto pra se rerguer sempre que alguem nos por pra baixo pense nisso!!!!!!!!

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  2. Sim, Juu, nós somos muito parecidas.

    E espero não perder o contato contigo, agora que não somos mais colegas de trabalho
    =\
    Pq sim, já sai. Já desisti. Nem sou mais dessa escola. Mas continuo a mesma Nikk que você conheceu e conhece. As mesmas idéias. Mas, como eu disse, perdi a batalha, mas não a guerra. Errei, mas assumo e admito que errei. E espero não errar de novo.

    E to esperando o seu post, ta.
    Quero que você seja uma colaboradora do Revolução Feminista. Pq vc eh Phoda.

    Vejo-te em breve. Obrigada por tudo. ^^

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  3. Gente, como assim? tipo essa é uma vida normal... trabalha luta pra ter salário, se sustentar e bláblá blá... o que tem haver com feminismo? o feminismo é o simples fato da mulher fazer o que os homens fazem? gente ninguém precisar de grupos para isso... não entendo, abraço e boa sorte com os trampos as escolas e cursos e criancinhas... Bye!!!! Tiago Mota.

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  4. Ser feminista é ser guerreira. É lutar e batalhar sempre. É não se conformar nem se acomodar.

    Feminismo não é mulheres fazerem o que os homens fazem. Feminismo é as mulheres NÃO DEIXAREM de fazer algumas coisas só por essas coisas serem consideradas "Coisas de homens". Se ela quer fazer, e é capaz, Faça. Porque a capacidade não vem do Gênero de cada um, e sim DE CADA UM. Sem considerar se é homem ou mulher, afinal, só existem as diferenças naturais entre homens e mulheres para fins de reprodução da espécie. Se não fosse isso seríamos todos completamente iguais.

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