quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O cão indigente

Você que irá ler esta história: Se estiver com o tempo curto, não leia. Pois além de ser relativamente longa, ela necessita de uma atenção especial. Tenha sensibilidade e mente aberta. Porque você não está acostumado a ver um amor gratuito por algo que nem ao menos é da sua espécie; não te faz sorrir; não fala com você; não te ouve; não te beija; não resolve seus problemas; e nem ao menos teve o privilégio de te conhecer... Em vida. A história pode ser verídica... E pode não ser. Depende do que você está acostumado a acreditar.


~ ~  ° ~ ~

Minha vida era normal
Os caminhos até minha casa eram os mesmos
No ônibus via as mesmas paisagens
E sempre os mesmos sentimentos


Mas um dia ele apareceu e eu o conheci
Do pior jeito que se poderia conhecer alguém
Mas ele existia e estava lá
No entanto não era mais ninguém


O cão estava naquela curva
Com a barriga aberta e o pescoço quebrado
Seu sangue era preto no asfalto escuro
E o pelo caramelo todo ensanguentado


Minha reação foi de choque
Não esperava ver aquele ser torto
Meus olhos arregalados não o trouxeram de volta
Porque lá ele continuou solitário e morto


No segundo dia nem lembrava mais dele
Mas infelizmente sentei do lado esquerdo
E na triste fatídica curva...
De novo congelei de medo


—Por que ninguém o tira de lá?
Só por ser quadrúpede e não saber falar?
É por não ter CPF ou RG?
Isso é motivo para ninguém se importar?


Mas os carros passavam por cima dele
E contribuiam para seu desaparecimento
As mães fechavam os olhos dos filhos
Mas pelo animal não nutriam sentimento


Será que só eu me importo com ele, afinal?
O dia inteiro ele ficava na minha mente
No terceiro dia ele estava mais abaixado
E cada vez mais fazia parte do ambiente


No quarto dia eu sentei do lado direito
Mas de longe a curva eu avistei
Rápido, levantei e mudei de lugar
—Meu Deus, será que eu pirei?


Eu odiava ver o pobre ser daquele jeito
Mas sentia um prazer em ver aquele cão...
Eram os 3 segundos que completavam meu dia
Eu me sentia deveras sem coração


Depois entendi o porque de tudo isso
Não era prazer que eu sentia, era comoção
Por ele não se podia fazer mais nada
Além da singela homenagem de olhar sua putrefação


Era absurdo como o cadáver fora exposto
O mais íntimo e último que ele poderia oferecer
Ninguém dava o devido valor, no que era
Só para a terra ter o privilégio de ver


Às vezes penso: será que não nos vimos por ai?
Numa esquina qualquer ou algum cantinho
Talvez eu tenha assoviado para você
Será que abanou o rabo ou seguiu seu caminho?


Eu sei que você não queria morrer
Por que estava naquela curva naquele momento?
Queria que estivesses a salvo em teu lar
Por que estava sozinho, atravessando a rua ao relento?


Pobre cão, ninguém quer saber quem fostes
Nem mesmo se tivesses sido a Lessie
Nem tua própria mãe importa-se contigo
Só pariu-te por instinto de prolongar a espécie


Meu querido animalzinho
Por que mexeu tanto com minha cabeça?
Por que amar algo que nem existe mais?
Mesmo que você de fato mereça


Mas saibas que eu te amo
Mesmo sem tê-lo visto vivo
Quero muito que agora estejas feliz
No lugar por onde tenha partido


Queria ter te salvado na hora
Gritado e chamado sua atenção
Mas será que gostavas de sua vida?
Vida triste e miserável de cão?


Mas você some cada dia mais
E agora já estais no nível do chão
O que mais posso eu fazer por ti?
Além de observar sua decomposição?


Quando só restavam alguns pêlos no asfalto
Como um tapete velho, sujo e rasgado
Veio uma tempestade e o levou embora
—Como meu bicho fora maltratado!


Como posso viver sem ti?
Já fazias parte da minha vida
Agora o desespero me aflige
Minha calma foi com sua partida


Se eras macho ou fêmea eu não sei
Só sei que a vida é uma tremenda loucura
Num momento estais intensamente vivo
Mas a morte é uma doença sem cura


Desde o sangue escorrendo no asfalto cinza
Até a sutil mancha negra que nele restou
Eu o observei, eu o pensei, eu o rezei
Mas não sei se de fato algo adiantou


Agora não tem nada mais naquela curva
E ninguém se lembra do cão que não fez história
Ele pode até ter ido com a chuva
Mas ficará para sempre em minha memória.



Nikk Lopes.

9 comentários:

  1. É dificil saber que muitos acabaram da mesma forma, e serão poucos os que darão valor a isso.

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  2. Só se da valor ao que se perde, mas ainda sim, por termos perdido e não pelo que se perdeu. C'est la vie mademoiselle...C'est la vie

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  3. O difícil é amar coisas que naum vemos; não nos agradaram de alguma forma; não nos amaram em troca; não fizeram nada pela gente. O foda é dar um amor gratuito. Sem nada em troca. Nada.

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  4. C'est la vie mademoiselle...C'est la vie enquanto não vem la Révolution dos Homens, das coisas, dos valores, das relações, das ações, da ordem imposta e do sistema homicida facista.

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  5. Sistema Homicida Facista

    Quem não "serve" não precisa viver.

    Acho que isso soa antiquado demais, tipo há uns 10 mil anos isso poderia fazer algum sentido.

    Mas agora acredito (e espero de todo o coração) que evoluímos.

    Porque senão, não vejo razão para a nossa existência. Ou provamos que somos muito mais do que nascemos para ser, ou nos rendemos à morte e fazemos o que foi previsível que fizéssemos

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  6. O que mais é a morte, se não uma dádiva?
    E o que mais era o que restou do cão, depois dessa dádiva?

    Caímos nos costumes sociais, quase sempre.

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  7. ...Mas a morte é uma doença sem cura.

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  8. texto triste porem lindo

    o dia em que aprendermos a tratar-nos e os animais como devidos seres, seremos realmente humanos.

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  9. Que bom que gostou..

    Infelizmente aconteceu de verdade (como tantos outros que morrem)

    Mas mexeu demais comigo.

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