sábado, 30 de abril de 2011

Carta aberta para Sandy

Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.
por Tica Moreno*
Quando eu estava no ensino médio, você fez um desserviço pras meninas da minha idade, que é a mesma idade que a sua.
Foi a época da "garota sandy": uma jovem, bonita, magra, de cabelo liso, a filha que todo pai e mãe queria ter, rica…. e virgem. E que afirmava que queria casar virgem.
A garota sandy era aquilo que nenhuma de nós éramos, mesmo que a gente tivesse uma ou outra característica dessas aí de cima. A verdade é que a gente nem queria ser daquele jeito.
Foi a primeira vez (que eu me lembre) que eu me vi sendo comparada com um modelo de mulher que eu não queria ser. E eram os outros que nos comparavam. Aí a gente foi se sentindo inadequada, umas mais, umas menos.
Qual era (qual é) o problema de não casar virgem? (Isso pra não perguntar qual é o problema de não querer casar…)
Você não acha um problema de fato, até porque há alguns anos você afirmou que não tinha casado virgem. Fico até aliviada por você, porque imagina se não fosse bom com seu marido? Ainda mais se a relação de vocês for monogâmica e conservadora… Não desejo uma vida sem orgasmo nem pro meu pior inimigo.
Mas voltando. O padrão “garota sandy” não foi uma reportagem qualquer que saiu na revista da folha. Reforçou um padrão que faz com que a anorexia e a bulimia estejam entre as principais doenças de jovens mulheres, que faz com que milhões de meninas e mulheres vivam sua sexualidade a vida inteira de forma passiva, em função do desejo e do prazer do cara, que faz as meninas e mulheres que são donas do seu desejo serem consideradas vadias, vagabundas, putas, devassas.
O machismo faz isso: separa as mulheres entre santas e putas, “valoriza” as santas e puras e desqualifica, discrimina, violenta as “putas”.
Deve ter algum motivo pra você se afirmar como santa, e não como puta, numa época da sua vida.
E daí eu vou te dizer, caso você ainda não tenha entendido o porquê dessa carta aberta, seu segundo desserviço pras mulheres. Ser a nova garota devassa.
Pra quê?? De dinheiro você não precisa.
Você não estudou psicologia? Deveria ter aprendido alguma coisa sobre sexualidade teoricamente, além da prática (que, de novo, espero que seja boa pra você).
Nem as santas, nem as putas, são donas do seu desejo, do seu corpo, da sua sexualidade. O símbolo da devassa, e o imaginário que essa cerveja construiu – e que você vai propagandear – é o de uma mulher feita nos moldes do que a maioria dos homens tem tesão por. Importa o tesão deles, e não o nosso.
As revistas femininas (e as masculinas) fazem isso também. Sabe aquelas dicas da Nova pra fazer qualquer mulher deixar qualquer homem louco na cama? Então. É o mesmo machismo, a mesma submissão.
Você de alguma forma tá querendo apagar a imagem de santa, usando a idéia de que você pode ser devassa?
Vou te dar um conselho… de mulher pra mulher: você não precisa ser santa, nem puta. Você pode ser livre.
* Tica Moreno é formada em Ciências Sociais, foi do DCE da USP e do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CEUPES). Atualmente trabalha na Sempreviva Organização Feminista, SOF. Tica é militante da Marcha Mundial das Mulheres

7 comentários:

  1. Gente se antes a sandy era simbolo de mulher de moral e familia cristã, agora a mulherada ta elegendo a valesca da gaiola das popozudas como womem simbol(meu inglês é péssimo, graças a deus) e por favor, a sandy nunca foi uma "homérica" formadora de opinião, e outra, quem é manipulado/alienado é porque quer, ninguem induz ninguem a nada, o seu corpo e a sua mente é propriedade exclusiva sua, quem manda em si mesmo é você, e não a Rede Globo de telemanipulações e nem F(a)olha de SP, ou o Estadão, ou a extrema direita Veja.

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  2. Eu não peguei essa época de "garota sandy" ainda era muito criança. Mas quando eu vi esse texto, achei interessante publicar aqui também porque é fato que a Sandy fez um desserviço à sociedade. Por mais que as mentes das garotas sejam delas mesmas, elas querem se adequar ao que o resto do mundo acha certo, e não ao que elas mesmas acham certo.

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  3. Sinceramente mulheres assim paracem que pedem pela prorrogação da existência do machismo.

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  4. Não é prorrogação do machismo.
    É o cessar da submissão por parte das mulheres.
    É o lutar, e não o render às normas padrões que a sociedade nos "enfia" pra dentro da cabeça.
    É a liberdade de escolher entre ser uma vadia, ser uma santa ou ser o que você quiser. Se ela escolheu ser uma santa, que não tivesse tentado fazer o resto das meninas acharem que é obrigação delas serem como ela.

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  5. Eu JURO que não sou machista, mas... vocês mulheres, e digo isso à você que escreveu o artigo... cadê a vontade, a ideia de vocês, que era ser IGUAL ao homem? Acho que essa ideia não ficou transparente no que você redigiu, posso estar enganado, mas é um ponto que me chamou atenção. Sobre ser "puta" ou "santa"... convenhamos... nenhum homem quer, nem pra CASAR ou NAMORAR uma mulher ou menina que dá pro primeiro cara que xaveca ela... e por ser mais bonitinho... assim como vocês tbm não iriam querer nada sério com um cara deste tipo... que pega qualquer menina que aparece e q dá chance, e ja leva pra cama... até por questão de saúde e confiança... então, não culpem apenas os homens, pois vocês tbm não gostariam... assim como nós, vocês só ficariam com um cafajeste para se divertir... ou seja, vocês tbm nos dividem em "santos" e "putos"...

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  6. Ah, e talvez sobre a Sandy ser modelo de menina perfeita... lembre-se que talvez ela mudou de ideia apenas, e quando VOCÊ diz que ela tentou passar que era obrigação das meninas serem daquele jeito... ela tinha toda a mídia por trás... que é LÓGICO que ia por ela num pedestal de cristal por ser tão inocente... e logo, muitos da nossa população, que acreditam em tudo que a televisão prega, iam toma iss como o certo! Então culpe a população e a mídia, e não a garota!

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  7. "Cadê a vontade, a ideia de vocês, que era ser IGUAL ao homem?"

    Não queremos ser iguais aos homens. Queremos a igualdade dos sexos. E isso não significa que nós, mulheres, temos que mudar para ficarmos parecidas com os homens. E nem que os homens têm que mudar para ficarem parecidos conosco. Ambos têm que se adequar para poderem atingir esse patamar de igualdade.

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