domingo, 1 de maio de 2011

Matemática é para meninos. É mesmo?

É fácil notar a predominância dos homens nas Olimpíadas de matemática. Nas classes dos cursos de Exatas, como engenharia e estatística, e, claro, nas carreiras que exigem domínio dessas áreas ditas “duras” de conhecimento.
Antes simplesmente de assumir que o cérebro feminino gosta menos da matemática – e da física, e da química – do que o masculino, devemos nos perguntar: será que estamos afastando as meninas dos números?
Estava conversando outro dia com uma amiga e ela me disse que a mãe sempre dizia para ela que matemática era difícil, que ela iria ver, quando entrasse na escola. Para o irmão, a mesma mãe não falava nada porque, afinal de contas, “meninos se dão bem com números”.
Até poderia ter sido diferente, mas essa minha amiga pegou uma antipatia pelas Exatas – e ela está longe de ser a única. Um estudo da Universidade de Washington divulgado nesta semana mostra que crianças de apenas 5, 6 anos de idade já identificam uma divisão: matemática é para os meninos. Isso tem reflexos lá na frente: menos meninas em carreiras que envolvem as ciências exatas, inclusive dentro das universidades, fazendo pesquisa. E, claro, afeta também os meninos: eles acabam ficando de fora das carreiras que envolvem maior habilidade em português porque, assim como as meninas, recebem mensagens desencorajadoras sobre sua capacidade de escrever e expressar emoções, por exemplo.
O estudo americano avaliou as respostas de 247 (126 meninas e 121 meninos) estudantes do ensino fundamental da cidade de Seattle. Quanto mais rápido os estudantes relacionavam nomes de meninos e de meninas com palavras ligadas a matemática e a leitura, maior era o estereótipo de gênero entre os alunos. Já na segunda série (algo como o nosso primeiro ano), os meninos associavam matemática com seu próprio gênero e as meninas ligavam o assunto ao sexo oposto.
Mas como crianças tão novas chegavam a essa conclusão? Segundo os pesquisadores da Universidade de Washington, os estereótipos culturais são parte importante da explicação. A falta de interesse das meninas pela matemática pode vir das mensagens da sociedade de que a matéria é mais masculina.
Dario Cvencek, líder do grupo que fez o estudo, conta que na antiga Iugoslávia, onde nasceu, não havia esse tipo de mensagem – e, por isso, não havia nenhuma falta de intimidade das meninas com a matemática. “Lá as pessoas pensavam que a matemática era para meninas tanto quanto para meninos”, diz.
Até conversar com minha amiga e ler sobre essa pesquisa, eu nunca tinha parado para refletir sobre esse assunto. Acabei seguindo jornalismo (que tem muito mais português do que matemática) e não me lembro de mensagens – explícitas ou implícitas – me dizendo que matemática era só para menino. Mas esse é o tipo de coisa de que a gente não se lembra. Só percebe lá pela sexta série que odeia trigonometria e preferia fazer análise sintática a resolver aqueles problemas de álgebra!
Você, leitor ou leitora, já tinha parado para pensar sobre isso? Acha que seu gosto ou desgosto pela matemática foi influenciado pelo seu sexo?
Se você tem filhos, já parou para pensar se está passando adiante esse estereótipo de que os números são para os meninos e as palavras, para as meninas?


Por: Letícia Sorg, repórter especial da Época, em São Paulo.

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