quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Alexandra Kollontai: Uma feminista como Comissária do Povo

"O capitalismo carregou para sobre os ombros da mulher trabalhadora uma carga que a esmaga; a converteu em operária, sem aliviá-la de seus cuidados de dona de casa e mãe.
Portanto, a mulher se esgota como consequência dessa tripla e insuportável carga que com frequencia expressa com gritos de dor e lágrimas.
Os cuidados e as preocupações sempre foram o destino da mulher; porém sua vida nunca foi mais desgraçada, mais desesperada que sob o sistema capitalista, logo quando a indústria atravessa um período de máxima expansão". ( A. Kollontai in Comunismo e Família, 1920)

Quem foi Alexandra Kollontai ( 1872-1952)


Nascida de uma família rica, cujo pai foi o general ucraniano Michael Domontovich, Alexandra Kollontai nasceu em 31 de março de 1872, na Finlândia. Com larga dedicação aos estudos incentivada pela família em colégios da elite, aos quinze anos preparava-se para prestar exames no Liceu masculino o que lhe permitiria obter o título de professora e lecionar em escolas primárias.
Concluídos os estudos, porém, passa a estudar francês e dedica-se também, intensamente ao Estudo da literatura russa, sonhando, então em ser escritora.
Em 1893, apesar da oposição dos pais, casa-se com seu primo de terceiro grau Vladimir Kollontai, também oficial do Exército, advindo de família pobre cujos pais foram expulsos de suas propriedade no Cáucaso por autoridade czaristas e que fora educado pela mãe professora.

O casamente faz Kollontai questionar a sua vida e a da maioria das mulheres de sua época:

"Amava meu belo marido e dizia a todos que era extraordinariamente feliz. Mas essa felicidade parecia manter-me prisioneira. Eu queria ser livre. O que entendia eu por isso? Eu não queria viver como viviam todas as minhas amigas e conhecidas recém-casadas. O marido ia trabalhar e a mulher ficava em casa, dedicando-se à cozinhar, fazia as compras domésticas.”

Vê-se atraída pelo marxismo que naquele momento penetra com muita intensidade na Rússia, provocando discussões em círculos universitários e entre a juventude de um modo geral.
Dedica-se a escrever sua primeira novela que trata da igualdade de direitos entre homens e mulheres. O livro narra a vida de uma mulher solteira, próxima dos 40 anos que trabalhava e vivia sem amor e que se apaixona por um rapaz mais jovem, que lhe propõe partir para o exterior, para onde ele viaja a trabalho. De uma forma que contrariava todos os costumes de então, o personagem propõe à sua amada que os dois estejam juntos enquanto durar a viagem, vivendo como "camaradas " e que, após regressarem, continuem a relação, porém, livre e independente um do outro. O texto foi enviado ao escritor Korolenko, considerado o melhor conhecedor de literatura da época, que o reprovou por preconceitos morais.

Além dos cuidados com o filho Mikail, que chega no segundo ano do casamento e da atividade literária, Alexandra participa de grupo de um círculo literário - que realiza inúmeras discussões políticas - e realiza um trabalho educacional como voluntária entre pobres da periferia da então capital russa.

Já em 1898 atua como simpatizante dos socialistas, realizando pequenas missões - como o transporte de documentos secretos - sem no entanto ingressar formalmente no Partido.

Resolve, então, abandonar o casamento por causa, segundo ela, da "tirania do amor" estabelecida pelo marido. Ingressa no Partido Social Democrata Operário Russo (PSDOR) e, pouco depois, parte para a Suíça, a fim de estudar marxismo.
Na Universidade, conhece a obra de Kautski e de Rosa de Luxemburgo e torna-se, a partir de 1899 propagandista do PSDOR, escrevendo artigos e fazendo palestras que expunham a política do partido.
No ano seguinte, dirige-se para a Inglaterra, interessada em estudar o movimento operário daquele país. Regressando à Rússia, após alguns meses, escreve inúmeros artigos e torna-se uma destacada militante socialista.

Em 1905, participa ativamente da Revolução, atuando no movimento de mulheres. Encontra-se com Lênin, pela primeira vez, em uma reunião clandestina, tornando-se amiga do dirigente bolchevique e de sua esposa. Neste mesmo ano, encontra-se com a dirigente socialista Vera Zasulich, pedindo-lhe conselhos sobre como organizar o trabalho entre as operárias e por onde começá-lo.

No inverno de 1905-1906, além de realizar um trabalho de agitação entre as massas, trava um combate político com as feministas, "
defendendo a idéia de que para a social-democracia não existia o problema feminino separado". Realiza uma série de palestras sobre o papel das mulheres na economia, a história das relações conjugais etc. difundindo as idéias socialistas em relação à questão da libertação da mulher. A partir de então por cerca de 10 anos, participará da fração menchevique do PSDOR.

No sétimo Congresso da II Internacional, é a única delegada mulher da delegação russa. Juntamente com Clara Zetkin, propõe a realização de campanhas em favor dos direitos das mulheres trabalhadoras.

Dois anos depois, organiza um clube de mulheres, sofre várias perseguições por sua atividade política, despertando particular ódio dos órgãos de repressão por sua origem burguesa e de família de militar. Foge o exterior onde ficará por mais de nove anos, de dezembro de 1908 até março de 1917. Durante este período atuou em defesa do socialismo e, particularmente, na luta das mulheres, na Alemanha, Inglaterra, França, Suécia, Noruega, Dinamarca, Suíça, Bélgica e Estados Unidos. Neste período publicou aquela que é considerada sua mais importante obra "
A sociedade e a maternidade".

Ingressa no Partido Social Democrata Alemão, trabalhando como agitadora, conferencista e escritora. Apenas em 1915, ingressou no Partido Bolchevique posicionando-se de forma definitiva em relação à divisão entre as duas alas principais do socialismo russo: bolcheviques e mencheviques.

Neste momentos políticos cruciais em que, a II Internacional dividi-se diante da posição majoritária no seu interior de apoio dos partidos operários às burguesias nacionais diante da I Grande Guerra, Alexandra Kollontai organiza, como uma das principais dirigentes socialistas internacionalistas, a delegação norueguesa para a Conferência de Zimmerwald. Escreve, então, a pedido de Lênin, o folheto intitulado " Quem necessita da guerra ".

Regresando à Rússia, em 1917, após a revolução de fevereiro, Alexandra participará ativamente da luta do Partido Bolchevique pela conquista do poder pelo proletariado. Delegada do Soviete de Petrogrado edita o jornal "
A Operária" e organiza o primeiro Congresso das Mulheres Operárias de cidade em que se organiza o combate do partido entre as operárias.
Após a Revolução de Outubro, será a única mulher a ter um cargo no primeiro escalão do governo, tornando-se Comissária do Povo (equivalente a ministro de Estado) do Bem Estar Social e participando ativamente da elaboração da novas leis do Estado soviético sobre os direitos da mulher, o casamento, a família etc., a mais avançada legislação em favor dos direitos da mulher de todos os tempos.

Nestes anos revolucionários escreve,
 Romance e Revolução , enfocando as dificuldades da vida dos revolucionários na após a vitória do proletariado em 17. Também neste período publica, entre outras obras ,"A mulher moderna e a classe trabalhadora", "Comunismo e família", e a uma das suas obras mais divulgadas "A nova mulher e a moral sexual". Dentre as novelas destaca-se "Amor Vermelho" , "Irmãs" e "O amor de três gerações".
Em "Comunismo e Família" Kollontai escreveu:
"Se manterá a família em um Estado comunista? Persistirá na mesma forma atual? São estas questões que atormentam, nesse momento, à mulher trabalhadora e a seus companheiros, os homens.
Não devemos achar estranho que nesses últimos tempos este problema perturbe a mente das mulheres trabalhadoras. A vida muda continuamente diante de nossos olhos; antigos hábitos e costumes desaparem pouco a pouco. Toda a existencia da familia proletaria se modifica e se organiza de uma forma tão nova, tão fora do comum, tão estranha, como nunca podemos imaginar.
E uma das coisas que mais causa perplexidade na mulher, nesses momentos, é a maneira como foi facilitado o divórcio.
De fato, em virtude do decreto do Comissario do Povo de 18 de dezembro de 1917, o divórcio deixou de ser um privilégio acessível somente aos ricos; de agora em diante, a mulher trabalhadora não terá que esperar meses e, inclusive, até anos para que seja julgado seu pedido de separação matrimonial que dê a ela o direito de separar-se de um marido alcólatra ou violento, acostumado a espancá-la. De agora em diante poderá se obter o divórcio amigavelmente dentro do período de uma ou duas semanas, no máximo.
Porém, é precisamente esta facilidade para obter o divorcio, fonte de tantas esperanças para as mulheres que são desgraçadas em seu matrimônio, o que assusta outras mulheres, particularmente aquelas que consideram o marido como o "provedor" da família, como o único sustento da vida, a essas mulheres que não compreendem que devem acostumar-se a buscar e a encontrar esse sustento em outro lugar, não na pessoa do homem, mas sim na pessoa da sociedade, do estado".

Aos 45 anos, casa-se pela segunda vez, com Pavel Dibenko, marinheiro e revolucionário de grande prestígio, que após a Revolução passou a exercer funções no Comissariado do Povo para a Marinha, 17 anos mais jovem do que ela. Esse segundo casamento irá durar por cinco anos.

Opondo-se aos tratados de paz em separado com a Alemanha, assinado por León Trotski, em nome do governo soviético, Kollontai vai renunciar ainda em 1918, ao cargo no governo.
Naquele ano, escreve "
O Comunismo e a Família" e organiza o I Congresso das mulheres Operárias da Rússia, no qual é criado o Zhenutder, departamento de mulheres do Partido Comunista (novo nome do PSDOR), presidido, primeiramente por Inessa Armand.

Em 1920, depois de um ataque cardíaco sofrido por Inessa, Kollontai assume a direção do Zhenutder, juntamente com o Secretariado Internacional de Mulheres da Internacional Comunista - III Internacional, organizando uma intensa campanha nas fileiras do partido russo em defesa da mulheres. Em 1922, integra a Oposição Operária e é destituída da direção do Departamento de Mulheres do PCUS.

Posteriormente, assume o cargo de embaixadora da URSS em diversos países, sendo a primeira mulher do mundo a ocupar o cargo de embaixadora: de 1923 a 1925, na Suécia, entre 19126 e 1927, no México, de 1926 e 1930, na Noruega e de 1930 a 1945, na Suécia.
Alexandra Kollontai morre em Petrogrado no dia 9 de março de 1952.

Um comentário:

  1. Devo aqui parabeliza-las pelo trabalho incrivel do blog!
    Sabemos que hoje, na sociedade capitalista em que vivemos, só ouvi-se a voz da elite conservadora. A mídia golpista nos impõe um comportamento futil e submisso, é nas redes socias, na internet, nas rodas de conversas, na escola, na faculdade, lutando nas ruas que devemos contrapor essa ideia arcaica posta pela mídia sobre nós.
    E é de extrema importância que exista mulheres feministas que tenham um norte igualitário e não revanjista, um feminismo que respeita a história, mas que seja dialético à nossa conjuntura atual. Compreendendo que os grandes marcos aconteceram durante as grandes guerras, ou como expressões culturais e que o machismo é uma consequência do nosso sistema econômico-social, vamos a luta inspiradas por grandes mulheres e com objetivo de alcançar uma sociedade igualitária e emancipada!
    "Se eu não puder dançar, não é a minha revolução!" Disse a grande Feminista Emma Goldman!

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